ASPECTOS QUE DEVEM SER AVALIADOS EM UMA AVALIAÇÃO NEUROPSICOLÓGICA
1. Compreensão inicial
A avaliação neuropsicológica é uma avaliação psicológica, conduzida por psicóloga ou psicólogo, que investiga o funcionamento do sujeito a partir da integração de informações cognitivas, emocionais, comportamentais, funcionais, sociais, familiares, escolares, profissionais, médicas e históricas.
Entretanto, ela não consiste apenas na aplicação de testes. Além disso, o profissional não pode reduzi-la à investigação de uma única função cognitiva, de uma queixa isolada ou de uma hipótese diagnóstica previamente apresentada.
Nesse sentido, a avaliação deve procurar compreender o sujeito em sua totalidade. Para isso, deve considerar:
- como ele se desenvolveu;
- como funcionava anteriormente;
- como funciona atualmente;
- quais são suas capacidades;
- quais são suas dificuldades;
- quais fatores podem explicar essas dificuldades;
- como os diferentes aspectos do funcionamento se relacionam;
- quais prejuízos existem na vida cotidiana;
- quais recursos estão preservados;
- e quais são suas necessidades de intervenção, adaptação ou suporte.
Portanto, a avaliação neuropsicológica deve examinar os diferentes aspectos do funcionamento do sujeito. Contudo, o profissional poderá aprofundar alguns domínios de acordo com a idade, a história, as manifestações apresentadas e as hipóteses construídas ao longo do processo.
2. Motivo da avaliação, demanda e queixas apresentadas
2.1 Ponto de partida da investigação
Inicialmente, o motivo da avaliação, a demanda e as queixas apresentadas constituem o ponto de partida da investigação. No entanto, essas informações não representam conclusões previamente estabelecidas.
Dessa forma, o profissional deve compreender a queixa apresentada pelo sujeito, pela família, pela escola, pelo médico, por outro profissional, por uma instituição ou por uma autoridade judicial como uma informação inicial que dará origem a hipóteses de investigação.
2.2 Construção e revisão das hipóteses
Ao longo do processo, o profissional poderá:
- confirmar as hipóteses;
- confirmá-las parcialmente;
- reformulá-las;
- ampliá-las;
- descartá-las;
- ou construir novas hipóteses.
Portanto, o objetivo da avaliação não consiste simplesmente em comprovar aquilo que o encaminhamento informou.
Por exemplo, uma pessoa pode chegar com queixa de memória, mas a investigação pode demonstrar que sua principal dificuldade está relacionada à atenção, ao sono, à ansiedade, à depressão, à organização, ao uso de medicamentos ou a outras condições.
Da mesma forma, uma criança pode receber um encaminhamento por suspeita de desatenção, mas apresentar dificuldades de linguagem, aprendizagem, compreensão das instruções, regulação emocional ou adaptação ao contexto escolar.
Assim, a queixa orienta o início da investigação. Entretanto, ela não determina previamente o resultado nem limita os aspectos que o profissional deve avaliar.
2.3 Informações necessárias
Para conduzir essa investigação, o profissional precisa identificar:
- quem solicitou a avaliação;
- qual é a finalidade da avaliação;
- quais são as queixas apresentadas;
- quem apresenta cada queixa;
- quando as dificuldades começaram;
- como evoluíram;
- em quais ambientes aparecem;
- em quais situações aumentam ou diminuem;
- quais prejuízos produzem;
- como o próprio sujeito compreende suas dificuldades;
- como outras pessoas percebem seu funcionamento;
- se existem divergências entre os diferentes informantes;
- quais hipóteses iniciais podem explicar as manifestações;
- quais outras hipóteses precisam ser consideradas;
- quais condições precisam ser diferenciadas;
- e se as manifestações decorrem da interação entre fatores cognitivos, emocionais, comportamentais, sociais, ambientais, educacionais ou médicos.
Diante disso, o profissional deve manter uma postura investigativa. Consequentemente, precisa evitar conduzir todo o processo exclusivamente para confirmar uma hipótese inicial.
3. História de vida
3.1 Aspectos que compõem a história
Além da análise da demanda inicial, a história de vida é indispensável para compreender como o sujeito chegou ao funcionamento atual.
Nesse contexto, o profissional deve investigar:
- composição familiar;
- história das relações familiares;
- condições de nascimento e desenvolvimento;
- experiências da infância e da adolescência;
- trajetória escolar;
- trajetória profissional;
- relações sociais;
- eventos marcantes;
- mudanças importantes;
- perdas;
- separações;
- adoecimentos;
- acidentes;
- hospitalizações;
- situações traumáticas;
- condições socioeconômicas;
- contexto cultural;
- oportunidades de desenvolvimento;
- acesso à saúde e à educação;
- fatores de proteção;
- fatores de risco;
- e acontecimentos que possam ter influenciado o desenvolvimento cognitivo, emocional, comportamental e social.
3.2 Relação entre história e resultados
É importante destacar que o profissional não deve utilizar a história apenas como uma introdução ao laudo. Ao contrário, deve incorporá-la à interpretação dos resultados.
Isso ocorre porque um mesmo resultado em um teste pode adquirir significados diferentes, dependendo da história do sujeito, de sua escolaridade, de suas oportunidades de aprendizagem, de sua condição de saúde e de seu funcionamento anterior.
4. História do desenvolvimento
4.1 Condições iniciais do desenvolvimento
Além disso, principalmente na avaliação de crianças, adolescentes e pessoas com suspeita de alterações do neurodesenvolvimento, o profissional deve investigar:
- condições da gestação;
- intercorrências gestacionais;
- condições do parto;
- prematuridade;
- peso ao nascer;
- intercorrências após o nascimento.
4.2 Desenvolvimento motor e da linguagem
Em seguida, o profissional deve examinar:
- desenvolvimento motor;
- idade em que sustentou a cabeça;
- idade em que sentou;
- idade em que engatinhou;
- idade em que andou;
- desenvolvimento da coordenação motora;
- desenvolvimento da fala;
- desenvolvimento da linguagem;
- comunicação verbal e não verbal.
4.3 Desenvolvimento funcional, social e emocional
Além desses aspectos, o profissional precisa investigar:
- controle dos esfíncteres;
- alimentação;
- sono;
- brincadeiras;
- interação social;
- adaptação a mudanças;
- aquisição de autonomia;
- desenvolvimento emocional;
- comportamento;
- possíveis atrasos;
- possíveis regressões;
- e intervenções realizadas ao longo do desenvolvimento.
Do mesmo modo, o profissional deve verificar as diferenças entre o funcionamento esperado para a idade e aquele que o sujeito apresenta.
5. História médica, neurológica e psiquiátrica
5.1 Condições gerais de saúde
Paralelamente à investigação do desenvolvimento, o profissional deve analisar as condições de saúde, pois elas podem interferir diretamente no funcionamento cognitivo, emocional, comportamental e funcional.
Por esse motivo, precisa investigar:
- doenças anteriores e atuais;
- doenças neurológicas;
- doenças psiquiátricas;
- doenças genéticas;
- condições hormonais;
- alterações metabólicas;
- infecções;
- crises convulsivas;
- traumatismos cranioencefálicos;
- acidentes;
- cirurgias;
- internações.
5.2 Condições sensoriais, motoras e físicas
Além disso, o profissional deve examinar:
- alterações visuais;
- alterações auditivas;
- limitações motoras;
- presença de dor;
- fadiga;
- qualidade do sono;
- alimentação.
5.3 Medicamentos, substâncias e tratamentos
Da mesma maneira, precisa considerar:
- uso de medicamentos;
- efeitos dos medicamentos;
- mudanças recentes de medicação;
- uso de álcool;
- uso de outras substâncias;
- exames médicos realizados;
- tratamentos anteriores e atuais;
- histórico de acompanhamento psicológico ou psiquiátrico;
- e antecedentes familiares relevantes.
5.4 Integração das condições clínicas
Por fim, o profissional precisa verificar se uma condição neurológica, médica, psiquiátrica ou medicamentosa pode explicar os resultados encontrados. Além disso, deve considerar a possibilidade de que uma combinação desses fatores influencie o funcionamento do sujeito.



